domingo, 14 de dezembro de 2008

Livre associação

“— Casa.”
“— Pássaro.”
“— Pássaro.”
“— Prisão.”
“— Prisão.”
“— Vida.”
“— Vida.”
“— Água.”
“— Água.”
“— Medo.”
“— Medo.”
“— Mãe.”
“— Mãe.”
“— Noite.”
“— Noite.”
“— Sangue.”
“— Sangue.”
“— Mulher.”
“— Mulher.”
“— Dor.”
“— Dor.”
“— Fogo.”
“— Fogo.”
“— Diabo.”
“— Diabo.”
“— Sol.”
“— Sol.”
“— Morte.”
“— Morte.”
...
“— Morte?”
...
“— ... doutor?” 
“— Sim, enfermeira?”
“— O paciente... está morto há pelo menos meia hora!”
“— Interessante. Para quem mandamos a conta?”

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A Grande Conspiração

Matem Y

Aquele filho da puta

Que veio ao mundo

Nos arrastar para o fundo


Desarmem-no agora

Antes que se levante

Que concretize a profecia

Que destrua a poesia


Matem aquele monstro

Com balas ou facas

Ou tochas ou rimas


Arranquem sua cabeça

E joguem fora suas tripas

De bucólico inveterado

De ancião recém-nascido


Quem tiver culhões

Atire a primeira pedra

Direto nas costas

Dessa criatura de merda


Que veio para nos salvar

E redimir e ofender


Matem-no hoje, agora mesmo

Enquanto ele ainda pode morrer


Soltem em seu encalço

Os cães do Inferno e do Paraíso

Fodam com ele

Ou estaremos fodidos


Matem Y

Este Arlequim do Pandemônio

Para salvar nossos filhos

Para vermos sem sermos vistos


Enquanto ele existir

Nossas ruas serão sujas

Embriagadas, ensangüentadas

Letradas e imundas


Matem Y

O Último Maldito

Que roubou nossas mulheres

Que manchou nossos lençóis


Filho da puta como é, pode até já estar entre nós

As Luzes da Cidade



O sol está se pondo quando eu chego ao parque. Horário de verão. Devem ser umas sete e pouco da tarde, o momento do dia em que as nuvens parecem se dissolver e o céu ganha uma coloração nostálgica, deprimente, meio alaranjada como a chama de uma vela prestes a se apagar. Meio avermelhado como se prenunciasse atos violentos e sórdidos. Pela janela do carro eu quase posso ver o pecado começando a tomar conta da cidade. As primeiras estrelas despontam, opacas, como cacos de um sol despedaçado, esforçando-se para brilhar. Minha avó costumava dizer que as estrelas eram os olhos de deus vigiando nosso sono.

Mas essa noite será nublada.

Eu fico dentro do carro, estacionado entre as árvores, observando o gramado à frente e vigiando as pessoas que vêm e vão, correndo, gritando, conversando e sorrindo. Admiráveis pessoas desprezíveis com seus animais de estimação, com suas roupas coladas ao corpo e suas toalhas de piquenique. Com seus sorrisos plásticos e toda a saúde do mundo. Mas nenhuma delas está marcada, por isso apenas espero.

Mantenho os vidros enegrecidos do carro fechados e o aparelho de som desligado. Hoje não é um dia de música. Já não é mais dia. O sol foge finalmente para trás do bosque, escondendo-se do mundo. O lago se torna negro demais para refletir qualquer coisa além da própria escuridão. A noite chega, e eu não acendo os faróis. Os postes se acendem a cada quinze metros, como vagalumes estáticos de três metros de altura. Algumas pessoas vão embora, outras ainda ficam, e enquanto isso luzes se acendem dentro das mansões ao redor do parque. Mansões construídas em cima de segredos podres e milionários, escondidas atrás de muros farpados e impenetráveis.

Eu desço do carro e respiro o ar fresco do crepúsculo. No porta-malas pego a Bailarina, guardo-a comigo e inicio minha caminhada. As luvas de couro me protegem do frio, mas ainda assim preciso apertar o sobretudo contra o peito para que o vento não pareça tão cortante. Como um bom cidadão, eu ando sempre sob a luz dos postes, seguindo pela pista de corrida que contorna todo o parque. Meus lábios estão secos e rachados, passo minha língua sobre eles e a pele áspera chega a me machucar. Caminho por cerca de cinco minutos até encontrar alguém. Uma mulher. Velha. Ela anda a passos largos, vindo em minha direção, apressada. Eu a observo atentamente, mas não há marca alguma nela. Continuo caminhando, e quando a velha passa por mim levanta no ar um cheiro horrível de perfume barato e cigarros, o tipo de cheiro que gruda no cabelo e nas roupas. Ela vai embora e eu mantenho o ritmo do meu andar, movendo os olhos em todas as direções, observando cada vulto, absorvendo todos os sons. Alguém dá a partida em um motor V8 longe daqui. Os mosquitos sibilam em torno das lâmpadas, silhuetas se movem do outro lado do lago.

Risadas.

Eu ouço risadas.

Alguns metros adiante abandono a pista e sigo pelo gramado, onde a penumbra me envolve como um uniforme de guerra. Eu caminho sem pressa, sentindo a pulsação regular do meu coração e o frio que sobe por dentro das mangas do casaco. Mesmo assim, eu não tremo. Minhas pernas e braços estão firmes. Eu estou no controle.

Seguindo as risadas, caminho para dentro do bosque, onde as árvores começam a enroscar seus galhos umas nas outras, fechando a vegetação. O borbulhar da água de um riacho próximo lentamente ganha volume. Eu continuo seguindo as risadas, enquanto a escuridão se torna cada vez mais densa. Antes mesmo que eu os encontre, sei que são um casal. O homem fala pouco, tem uma voz grave e macia. Ela não. Sua risada é rascante, nervosa, típica de uma garota jovem e impulsiva. Descontrolada.

Eu os encontro sentados próximos ao riacho; um ao lado do outro, de costas para mim. Sua conversa e o riso histérico da garota abafam o som dos meus passos sobre as folhas e os galhos quebradiços. Mantenho-me escondido entre as árvores a uma distância de nove ou dez passos. Observo os dois sem demora, prestando atenção a todos os detalhes. E então, eu vejo...

A marca.

É como se tivessem tinta fosforescente espalhada por sua pele, ou grandes alvos circulares pairando acima de suas cabeças. Suas almas, seus corpos, seus gestos os identificam do mesmo modo que um sinalizador disparado em um quarto escuro.

Eles brilham na noite, e eu sei o que deve ser feito.

Meus dedos enluvados envolvem a Bailarina dentro do bolso. Eu a trago para fora, roçando o metal contra o tecido. Eles riem. Eles estão marcados. A Bailarina se ergue na escuridão da noite, linda e precisa, uma extensão do meu braço. Mentalmente, digo a ela o que fazer. Prendo a respiração. Deixo que ela escolha quem será o primeiro.

A garota.

Nós somos um só quando eu puxo o gatilho e o trovão do disparo se espalha pela mata. A cabeça da garota explode em um festival vermelho. Por um momento há silêncio, e o jovem precipita seu olhar para dentro da floresta. Para mim. Eu estou olhando dentro dos seus olhos quando atiro pela segunda vez, e minha preciosa Bailarina não me decepciona. Um tiro perfeito, no topo do crânio, uma obra de arte impecável.

A cada vez que puxo o gatilho dou vida a um clarão infinitamente belo e fugaz.

Meu coração não dispara, e minhas mãos não tremem. A Bailarina cospe pelo cano quente sua fumaça voluptuosa, que dança com o vento até se dissipar.

Minha Bailarina. Minha artista.

Depois de guardá-la eu recolho as cápsulas caídas no chão, tiro uma foto de cada um dos corpos e uma terceira enquadrando ambos. E vou embora.

Faço o caminho de volta na mesma velocidade. Um cachorro me segue por metade do trajeto, abanando o rabo atrás de mim. Mesmo depois que alcanço o carro, devolvo a Bailarina ao porta-malas e dou a partida, mesmo quando acelero pela rua para fora do parque, ainda posso vê-lo pelo retrovisor, sacudindo sua cauda para ninguém.

No primeiro semáforo fechado abro o caderno em cima do meu colo, e iluminado pela luz escarlate do sinaleiro rabisco sobre a folha: “27”.

Está ficando cada vez mais fácil. Mais brilhante. Mais irresistível.

E, como eu disse que aconteceria, essa foi uma noite nublada. Mas sempre é.


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Pequeno Gafanhoto?

Juro que ia postar algo interessante aqui, mas não passei para o papel e me esqueci o que era.



* * *


E dizem que o bom aluno supera o mestre...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Me Fode, Tédio (e goza nos meus sonhos)

A luz entra pela janela e bate na minha cara anunciando o raiar de mais um dia de merda. Tento voltar a dormir, não consigo, desisto, rastejo finalmente para fora das cobertas como um animal meio aleijado, um tanto pulguento, estralando o maxilar e vestindo a mesma roupa do dia anterior, e do dia antes deste. A cada manhã a casa parece menor e a cor das paredes sugere que despertei em um inferno azul-claro. Pelo resto do dia meu tempo será dividido entre cigarros, o violão e o computador, na frente do qual consigo passar horas sem fazer absolutamente nada, esperando o tempo passar.

O relógio bate, e o mundo espera que eu faça alguma coisa.

E eu faço. Arquiteto magníficas punhetas, realizo jornadas épicas do quarto para a sala, fotografo mentalmente o olhar depressivo que me encara no espelho, releio todos os livros que já li e embarco em viagens fantásticas de sono profundo patrocinadas pelo Barão Dramin.

Os ponteiros correm, perseguindo a si mesmos interminavelmente.

A paisagem lá fora muda pouco. Aqui dentro não muda nada. Passo o dia inteiro esperando um desastre, uma epifania, um telefonema. Nenhum deles chega. Eu espero deus bater na minha porta e dizer qualquer coisa, espero a iluminação, eu espero que meus dentes e cabelos caiam e espero cair na cova. Eu passo meus dias aguardando, seja o que for. Pelo tempo que estou esperando deve valer a pena.

Os céus escurecem anunciando a chegada da imponente madrugada, mãe dos bêbados, saqueadores e pervertidos. Dos molestadores e dos molestados. Minha mãe, que me alimenta em seu seio murcho e velho, o mesmo seio que talvez tenham abocanhado Leminski e Trevisan. E enquanto todos têm seus nomes inscritos com letras douradas nas capas de revistas, nos mausoléus de mármore e na porra da Grande História do Mundo, eu continuo sendo somente Eu, obrigado a carregar o próprio peso e a pensar sempre os mesmos pensamentos, incapaz de não ser eu, de ser outro, destinado à desprezível resignação que finca seus dentes na jugular dos fracos, dos inúteis e imprestáveis, daqueles esquecidos pelo mundo, e dia após noite, noite após dia, sorve de mim a inspiração, a alegria, meu sangue e meu tempo, sugando-me com tamanha devoção que sou levado a redigir o pior dos contos, o pior dos poemas, e narrar para as baratas em meu ombro a triste rotina de Eu, uma história curta demais para se tornar um romance e muito longa para ser vivida.

Ao cair da noite os pássaros fogem e as corujas despertam, e enfileiradas ao longo do galho observam-me distantes, trocando risadas entrecortadas e com seus gordos olhos amarelos vislumbrando meu rosto atrás da vidraça do mesmo modo que se observa um animal engaiolado, alimentado mas faminto.

As horas passam, ocupadas em construir o tempo, e o tempo tão ocupado em me destruir vai passando sem que eu construa nada, Eu, desperto madrugada adentro, adormecido por dentro, atravessando sozinho o deserto da noite e me afogando no oceano do isolamento.

Eu.
Eu...
eu...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Antes do Fim

No Jardim das Flores Mortas
A garotinha acomoda-se na balança
E agitando suas perninhas no ar
Ela me diz que está acabando

Eu me mantenho apenas ouvindo
O lamento dos brinquedos esquecidos
O choro da mãe sobre o berço
O último suspiro de sua filha

Ainda não acabou
Você pode ficar aqui
Ela deseja morrer
Mas ainda não acabou

O vestido suspende acima dos joelhos
Ela diz que está no fundo do poço
Pede para que eu jogue terra por cima
Isso não irá durar até amanhã

Eu estou apenas assistindo
Seu prazer sendo assassinado
A garotinha rejeita a si mesma
E não existe desejo, apenas lembranças

Ainda não acabou
Você pode voltar
Ela deseja sofrer
Mas ainda não acabou

Com seus pezinhos ela revira a terra
Torturando os vermes e indo embora
Há sangue escorrendo de seus olhos
E eu preciso martirizá-la

Eu fico apenas esperando
A garotinha pular sem chegar ao chão
Enquanto caminha de encontro a algo
Que não pode enfrentar

Ainda não acabou
Você pode dizer adeus
Ela desejava dizer
Mas está tudo acabado

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Papo Chapado 2 - O Telefonema


Esperava a ligação de um amigo... e ela chegou um tanto diferente do que eu esperava.

- Alô?

- Será que eu liguei certo? Quem tá falando?

- Como assim? Você liga no meu celular e me pergunta quem tá falando?

- É que eu quero falar com o Welker. Quem tá falando?

- Aqui quem fala é secretária de voz masculina dele... óbvio que sou eu!

- Olha, essa ligação tá muito confusa. Dona, faz o seguinte, fala que eu liguei e pede pro Welker retornar a ligação, tá bom?

- Deixa de ser estúpido, é o Welker falando!

- Não dona, eu não sou o Welker... mas quando a senhora achar ele, pede pra ele retornar a ligação.

- Cara, deixa de ser ridículo... sou eu!

- Ok, eu não preciso ser chamado de ridículo por alguém que eu nem conheço... eu ligo pra ele depois, não precisa passar recado nenhum. Tchau.