domingo, 14 de dezembro de 2008
Livre associação
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
A Grande Conspiração
Matem Y
Aquele filho da puta
Que veio ao mundo
Nos arrastar para o fundo
Desarmem-no agora
Antes que se levante
Que concretize a profecia
Que destrua a poesia
Matem aquele monstro
Com balas ou facas
Ou tochas ou rimas
Arranquem sua cabeça
E joguem fora suas tripas
De bucólico inveterado
De ancião recém-nascido
Quem tiver culhões
Atire a primeira pedra
Direto nas costas
Dessa criatura de merda
Que veio para nos salvar
E redimir e ofender
Matem-no hoje, agora mesmo
Enquanto ele ainda pode morrer
Soltem em seu encalço
Os cães do Inferno e do Paraíso
Fodam com ele
Ou estaremos fodidos
Matem Y
Este Arlequim do Pandemônio
Para salvar nossos filhos
Para vermos sem sermos vistos
Enquanto ele existir
Nossas ruas serão sujas
Embriagadas, ensangüentadas
Letradas e imundas
Matem Y
O Último Maldito
Que roubou nossas mulheres
Que manchou nossos lençóis
Filho da puta como é, pode até já estar entre nós
As Luzes da Cidade
O sol está se pondo quando eu chego ao parque. Horário de verão. Devem ser umas sete e pouco da tarde, o momento do dia em que as nuvens parecem se dissolver e o céu ganha uma coloração nostálgica, deprimente, meio alaranjada como a chama de uma vela prestes a se apagar. Meio avermelhado como se prenunciasse atos violentos e sórdidos. Pela janela do carro eu quase posso ver o pecado começando a tomar conta da cidade. As primeiras estrelas despontam, opacas, como cacos de um sol despedaçado, esforçando-se para brilhar. Minha avó costumava dizer que as estrelas eram os olhos de deus vigiando nosso sono.
Mas essa noite será nublada.
Eu fico dentro do carro, estacionado entre as árvores, observando o gramado à frente e vigiando as pessoas que vêm e vão, correndo, gritando, conversando e sorrindo. Admiráveis pessoas desprezíveis com seus animais de estimação, com suas roupas coladas ao corpo e suas toalhas de piquenique. Com seus sorrisos plásticos e toda a saúde do mundo. Mas nenhuma delas está marcada, por isso apenas espero.
Mantenho os vidros enegrecidos do carro fechados e o aparelho de som desligado. Hoje não é um dia de música. Já não é mais dia. O sol foge finalmente para trás do bosque, escondendo-se do mundo. O lago se torna negro demais para refletir qualquer coisa além da própria escuridão. A noite chega, e eu não acendo os faróis. Os postes se acendem a cada quinze metros, como vagalumes estáticos de três metros de altura. Algumas pessoas vão embora, outras ainda ficam, e enquanto isso luzes se acendem dentro das mansões ao redor do parque. Mansões construídas em cima de segredos podres e milionários, escondidas atrás de muros farpados e impenetráveis.
Eu desço do carro e respiro o ar fresco do crepúsculo. No porta-malas pego a Bailarina, guardo-a comigo e inicio minha caminhada. As luvas de couro me protegem do frio, mas ainda assim preciso apertar o sobretudo contra o peito para que o vento não pareça tão cortante. Como um bom cidadão, eu ando sempre sob a luz dos postes, seguindo pela pista de corrida que contorna todo o parque. Meus lábios estão secos e rachados, passo minha língua sobre eles e a pele áspera chega a me machucar. Caminho por cerca de cinco minutos até encontrar alguém. Uma mulher. Velha. Ela anda a passos largos, vindo em minha direção, apressada. Eu a observo atentamente, mas não há marca alguma nela. Continuo caminhando, e quando a velha passa por mim levanta no ar um cheiro horrível de perfume barato e cigarros, o tipo de cheiro que gruda no cabelo e nas roupas. Ela vai embora e eu mantenho o ritmo do meu andar, movendo os olhos em todas as direções, observando cada vulto, absorvendo todos os sons. Alguém dá a partida em um motor V8 longe daqui. Os mosquitos sibilam em torno das lâmpadas, silhuetas se movem do outro lado do lago.
Risadas.
Eu ouço risadas.
Alguns metros adiante abandono a pista e sigo pelo gramado, onde a penumbra me envolve como um uniforme de guerra. Eu caminho sem pressa, sentindo a pulsação regular do meu coração e o frio que sobe por dentro das mangas do casaco. Mesmo assim, eu não tremo. Minhas pernas e braços estão firmes. Eu estou no controle.
Seguindo as risadas, caminho para dentro do bosque, onde as árvores começam a enroscar seus galhos umas nas outras, fechando a vegetação. O borbulhar da água de um riacho próximo lentamente ganha volume. Eu continuo seguindo as risadas, enquanto a escuridão se torna cada vez mais densa. Antes mesmo que eu os encontre, sei que são um casal. O homem fala pouco, tem uma voz grave e macia. Ela não. Sua risada é rascante, nervosa, típica de uma garota jovem e impulsiva. Descontrolada.
Eu os encontro sentados próximos ao riacho; um ao lado do outro, de costas para mim. Sua conversa e o riso histérico da garota abafam o som dos meus passos sobre as folhas e os galhos quebradiços. Mantenho-me escondido entre as árvores a uma distância de nove ou dez passos. Observo os dois sem demora, prestando atenção a todos os detalhes. E então, eu vejo...
A marca.
É como se tivessem tinta fosforescente espalhada por sua pele, ou grandes alvos circulares pairando acima de suas cabeças. Suas almas, seus corpos, seus gestos os identificam do mesmo modo que um sinalizador disparado em um quarto escuro.
Eles brilham na noite, e eu sei o que deve ser feito.
Meus dedos enluvados envolvem a Bailarina dentro do bolso. Eu a trago para fora, roçando o metal contra o tecido. Eles riem. Eles estão marcados. A Bailarina se ergue na escuridão da noite, linda e precisa, uma extensão do meu braço. Mentalmente, digo a ela o que fazer. Prendo a respiração. Deixo que ela escolha quem será o primeiro.
A garota.
Nós somos um só quando eu puxo o gatilho e o trovão do disparo se espalha pela mata. A cabeça da garota explode em um festival vermelho. Por um momento há silêncio, e o jovem precipita seu olhar para dentro da floresta. Para mim. Eu estou olhando dentro dos seus olhos quando atiro pela segunda vez, e minha preciosa Bailarina não me decepciona. Um tiro perfeito, no topo do crânio, uma obra de arte impecável.
A cada vez que puxo o gatilho dou vida a um clarão infinitamente belo e fugaz.
Meu coração não dispara, e minhas mãos não tremem. A Bailarina cospe pelo cano quente sua fumaça voluptuosa, que dança com o vento até se dissipar.
Minha Bailarina. Minha artista.
Depois de guardá-la eu recolho as cápsulas caídas no chão, tiro uma foto de cada um dos corpos e uma terceira enquadrando ambos. E vou embora.
Faço o caminho de volta na mesma velocidade. Um cachorro me segue por metade do trajeto, abanando o rabo atrás de mim. Mesmo depois que alcanço o carro, devolvo a Bailarina ao porta-malas e dou a partida, mesmo quando acelero pela rua para fora do parque, ainda posso vê-lo pelo retrovisor, sacudindo sua cauda para ninguém.
No primeiro semáforo fechado abro o caderno em cima do meu colo, e iluminado pela luz escarlate do sinaleiro rabisco sobre a folha: “
Está ficando cada vez mais fácil. Mais brilhante. Mais irresistível.
E, como eu disse que aconteceria, essa foi uma noite nublada. Mas sempre é.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Pequeno Gafanhoto?
E dizem que o bom aluno supera o mestre...
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Me Fode, Tédio (e goza nos meus sonhos)
O relógio bate, e o mundo espera que eu faça alguma coisa.
E eu faço. Arquiteto magníficas punhetas, realizo jornadas épicas do quarto para a sala, fotografo mentalmente o olhar depressivo que me encara no espelho, releio todos os livros que já li e embarco em viagens fantásticas de sono profundo patrocinadas pelo Barão Dramin.
Os ponteiros correm, perseguindo a si mesmos interminavelmente.
A paisagem lá fora muda pouco. Aqui dentro não muda nada. Passo o dia inteiro esperando um desastre, uma epifania, um telefonema. Nenhum deles chega. Eu espero deus bater na minha porta e dizer qualquer coisa, espero a iluminação, eu espero que meus dentes e cabelos caiam e espero cair na cova. Eu passo meus dias aguardando, seja o que for. Pelo tempo que estou esperando deve valer a pena.
Os céus escurecem anunciando a chegada da imponente madrugada, mãe dos bêbados, saqueadores e pervertidos. Dos molestadores e dos molestados. Minha mãe, que me alimenta em seu seio murcho e velho, o mesmo seio que talvez tenham abocanhado Leminski e Trevisan. E enquanto todos têm seus nomes inscritos com letras douradas nas capas de revistas, nos mausoléus de mármore e na porra da Grande História do Mundo, eu continuo sendo somente Eu, obrigado a carregar o próprio peso e a pensar sempre os mesmos pensamentos, incapaz de não ser eu, de ser outro, destinado à desprezível resignação que finca seus dentes na jugular dos fracos, dos inúteis e imprestáveis, daqueles esquecidos pelo mundo, e dia após noite, noite após dia, sorve de mim a inspiração, a alegria, meu sangue e meu tempo, sugando-me com tamanha devoção que sou levado a redigir o pior dos contos, o pior dos poemas, e narrar para as baratas em meu ombro a triste rotina de Eu, uma história curta demais para se tornar um romance e muito longa para ser vivida.
Ao cair da noite os pássaros fogem e as corujas despertam, e enfileiradas ao longo do galho observam-me distantes, trocando risadas entrecortadas e com seus gordos olhos amarelos vislumbrando meu rosto atrás da vidraça do mesmo modo que se observa um animal engaiolado, alimentado mas faminto.
As horas passam, ocupadas em construir o tempo, e o tempo tão ocupado em me destruir vai passando sem que eu construa nada, Eu, desperto madrugada adentro, adormecido por dentro, atravessando sozinho o deserto da noite e me afogando no oceano do isolamento.
Eu.
Eu...
eu...
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Antes do Fim
A garotinha acomoda-se na balança
E agitando suas perninhas no ar
Ela me diz que está acabando
Eu me mantenho apenas ouvindo
O lamento dos brinquedos esquecidos
O choro da mãe sobre o berço
O último suspiro de sua filha
Ainda não acabou
Você pode ficar aqui
Ela deseja morrer
Mas ainda não acabou
O vestido suspende acima dos joelhos
Ela diz que está no fundo do poço
Pede para que eu jogue terra por cima
Isso não irá durar até amanhã
Eu estou apenas assistindo
Seu prazer sendo assassinado
A garotinha rejeita a si mesma
E não existe desejo, apenas lembranças
Ainda não acabou
Você pode voltar
Ela deseja sofrer
Mas ainda não acabou
Com seus pezinhos ela revira a terra
Torturando os vermes e indo embora
Há sangue escorrendo de seus olhos
E eu preciso martirizá-la
Eu fico apenas esperando
A garotinha pular sem chegar ao chão
Enquanto caminha de encontro a algo
Que não pode enfrentar
Ainda não acabou
Você pode dizer adeus
Ela desejava dizer
Mas está tudo acabado
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Papo Chapado 2 - O Telefonema
Esperava a ligação de um amigo... e ela chegou um tanto diferente do que eu esperava.
- Alô?
- Será que eu liguei certo? Quem tá falando?
- Como assim? Você liga no meu celular e me pergunta quem tá falando?
- É que eu quero falar com o Welker. Quem tá falando?
- Aqui quem fala é secretária de voz masculina dele... óbvio que sou eu!
- Olha, essa ligação tá muito confusa. Dona, faz o seguinte, fala que eu liguei e pede pro Welker retornar a ligação, tá bom?
- Deixa de ser estúpido, é o Welker falando!
- Não dona, eu não sou o Welker... mas quando a senhora achar ele, pede pra ele retornar a ligação.
- Cara, deixa de ser ridículo... sou eu!
- Ok, eu não preciso ser chamado de ridículo por alguém que eu nem conheço... eu ligo pra ele depois, não precisa passar recado nenhum. Tchau.